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Agenda 2012

Luto inacabado: a dor e a esperança das mães de desaparecidos

Elas não sabem onde eles estão, mas, durante anos, procuram, esperam e acreditam no reencontro com seus filhos

Por Rafaela Carvalho - Edição Acredito - dezembro de 2012

A progressão de idade ajuda a identificar como seria o rosto de Hugo nos dias atuais, cinco anos após seu desaparecimento.

A cada 11 minutos, uma pessoa desaparece no Brasil. Só no estado de São Paulo, 60 desaparecimentos são registrados todos os dias. Atualmente, não há um cadastro nacional de pessoas desaparecidas ou uma delegacia especializada em analisar a fundo esses casos. Por não haver a certeza de um crime, as forças de segurança pública também se isentam de qualquer investigação que exija mais do que um boletim de ocorrência.

 

Da dor solitária à busca coletiva

Ivanise Esperidião da Silva Santos tem unhas e maquiagem impecáveis. Seu cabelo castanho claro está preso em um coque, de modo que sua camisa com uma simpática estampa de zebra chame mais atenção. Cada anel de pedra que decora suas mãos parece ter sido cuidadosamente escolhido para combinar com o colar e o par de brincos dourados. O relógio, grande e igualmente dourado, tiquetaqueia no mesmo ritmo que Ivanise pressiona o botão da caneta esferográfica que está em suas mãos. Sentada com os braços apoiados à mesa e observando a caneta com que brinca, a alagoana de 51 anos deixa transparecer toda a angústia que sua aparência não confessa: “Eu não tenho nenhuma informação sobre onde a minha filha pode estar hoje.”


Fabiana Esperidião está desaparecida há 16 anos. A filha de Ivanise foi vista pela última vez a 20 metros de casa.

Fabiana Esperidião da Silva tinha 13 anos quando desapareceu, em 23 de dezembro de 1995, a 20 metros de casa em Pirituba, São Paulo. “Todos os meus sonhos e projetos de vida pararam. A vida se tornou uma grande interrogação e eu quase enlouqueci”, diz a mãe, que nunca havia ido a uma delegacia antes daquele dia. Ao registrar o desaparecimento da filha, porém, Ivanise se espantou com o desinteresse com que foi tratada: “Achei que eles fossem me ajudar, mas só me perguntaram sobre a possibilidade de a minha filha ter fugido com algum namorado ou de ela ser usuária de drogas. Fiquei revoltada.”

Motivada pela raiva, Ivanise iniciou sozinha sua busca por Fabiana. Já na noite do desaparecimento, entrou na mata que tangencia a Avenida Raimundo Pereira de Magalhães, rua onde a filha foi vista pela última vez. Sem sucesso, passou a visitar hospitais e unidades do Instituto Médico Legal durante os dias seguintes. À noite, andava pelas ruas, atrás de qualquer pista. Levava consigo uma peça de roupa e uma foto da filha. “Eu conversava com ela, sentia o cheiro dela na roupa. Nunca me importei que me chamassem de louca. Queria a minha filha de volta.”

            O desespero por não ter informações quase matou Ivanise. “Ouvia das pessoas que eu ia morrer”, conta. Em fevereiro de 1996, a mãe de Fabiana fumava de dois a três maços de cigarro por dia, tomava o triplo de calmantes receitados pelos médicos e pesava 36 quilos. Nessas circunstâncias, foi convidada pela novelista Glória Perez para participar da novela Explode Coração, da Rede Globo, para contar sobre o desaparecimento de Fabiana. Mesmo debilitada, Ivanise aceitou o convite.

Ao viajar para o Rio de Janeiro, conheceu as Mães da Cinelândia, um grupo de mulheres que reivindicavam seus direitos e os de seus filhos desaparecidos. Com elas – e com os telespectadores da novela –, Ivanise dividiu sua história. Falou da falta de assistência e preocupação dos órgãos públicos, da angústia de não saber o paradeiro da filha.

Foi quando sua dor ganhou visibilidade nacional: depois de ser procurada por inúmeros parentes de pessoas desaparecidas, a mãe de Fabiana decidiu unir aqueles que sofriam pelo mesmo motivo que ela. Em 31 de março de 1996, foi até a Praça da Sé. Nas escadarias da Catedral, agregou dezenas de pessoas que choravam, até então sozinhas, o desaparecimento de seus entes. Majoritariamente formado por mulheres, o grupo ficou conhecido como Mães da Sé.

 

O movimento

“Nós viramos febre. Foi um dia marcante porque percebi que não estava mais sozinha”, lembra Ivanise, que depois de ficar conhecida, transformou sua dor em Organização Não Governamental. Hoje, presidente-fundadora das Mães da Sé, ela representa tudo que os órgãos públicos não conseguem ser para familiares de pessoas desaparecidas em São Paulo. “Eu perdi muito mais do que minha filha: perdi meu marido, minha saúde... mas em compensação, ganhei uma nova família, que são as pessoas que sentem a mesma dor que eu”, diz Ivanise, vítima de dois infartos e duas paradas cardíacas desde o desaparecimento de Fabiana. Atualmente, parte da luta da fundadora da ONG, também é mostrar às pessoas os seus direitos enquanto parentes de desaparecidos. “O policial até sabe lidar com a dor da perda de uma mãe cujo filho foi morto. Mas ele não está preparado para lidar com a dor da nossa incerteza.”

Hoje, Ivanise ganhou outras filhas: elas são, em sua maioria, mães que procuram a Organização Não Governamental atrás de orientação e consolo. Até outubro de 2012, 9222 nomes já constavam do registro de desaparecidos do banco de dados das Mães da Sé. Das pessoas cadastradas, 2657 já haviam sido encontradas com vida. Outros 212 óbitos já haviam sido computados.

Conhecendo com o sofrimento de outras mães, Ivanise entendeu melhor o seu: nove anos depois do desaparecimento de Fabiana, decidiu se livrar os pertences da filha. Até hoje, porém, continua contando sua idade: a moça completou 30 anos em 2012. “Tenho certeza de que a Fabiana está viva. A esperança de encontrá-la é o combustível que move a minha vida.”

Em seu escritório, a presidente-fundadora não chora ou transparece seu sofrimento. Mais forte do que a dor é a motivação em sua busca.

 

O escritório

Baias bege-acinzentadas separam a sala de espera das duas salas de trabalho da sede das Mães da Sé, na Rua São Bento, centro de São Paulo. Espalhados pelas paredes móveis, cartazes com fotos de desaparecidos tomam conta do espaço. Ao lado da meia dúzia de computadores espalham-se porta-retratos preenchidos com rostos sorridentes, mas maculados pela palavra “desaparecido” dentro da mesma moldura. Vasos com flores artificiais colorem o ambiente. Um mural repleto de papeis coloridos com mensagens de fé e apoio, escritas por e para as mães de desaparecidos, cumpre o mesmo papel.

Em uma pequena mesa de vidro na entrada do escritório, uma Bíblia Sagrada está aberta no livro dos Salmos, capítulo 90. Os versículos à mostra parecem tentar explicar o sofrimento e a esperança de quem passa por ali em busca de ajuda e de respostas: “Pois todos os nossos dias vão passando na tua indignação; passamos os nossos anos como um conto que se conta. (...) Ensina-nos a contar nossos dias, de tal maneira que alcancemos corações sábios.”

 

Pior do que a morte

É contando um dia após o outro que Francisca Ribeiro Santos, de 47 anos, acorda. Há seis meses, ela sai de Guarulhos durante a semana e se dirige ao escritório das Mães da Sé para trabalhar ao lado de Ivanise como telefonista. “Será que é hoje?”, pensa todas as manhãs.

Sentada com pernas e braços colados ao corpo, Francisca parece tímida e fala baixo. Tem as lágrimas grudadas em seus olhos - elas não desaparecem, mas também não escorrem pelas bochechas de seu rosto fino de pele negra. Estão ali, paradas em seu olhar. Fixas como a dor que ela sente todos os dias desde 2 de outubro de 2007, quando Hugo Ribeiro Santos Camargo, seu filho, desapareceu.

Em uma das salas do escritório das Mães da Sé, conta sua história: era sua cunhada que cuidava de Hugo. Durante todas as tardes, o menino brincava na rua. Assim que começava a escurecer, voltava para casa. Cinco anos atrás, ao ser chamado de volta pela cunhada de Francisca, o menino, na época com dez anos de idade, não reapareceu.

Ao registrar o desaparecimento de Hugo, a mãe ouviu respostas desinteressadas na delegacia. “Uma delegada me disse que eu não estava com cara de preocupada ao denunciar o ocorrido. Houve quem me dissesse que seus filhos não ficavam brincando na rua como o meu, insinuando que a culpa pelo desaparecimento do Hugo havia sido minha”, conta Fran, com uma voz baixa, mas cheia de revolta e angústia. As mãos, uma segurando a outra, apertam-se como se quisessem prender e esmagar toda a sua frustração de mãe que perdeu o filho. O ódio que sentiu a fez entender: dali para frente, sua busca seria primordialmente solitária.

 

Disfarces

Para buscar seu filho, Fran se vestiu de mendigo e passou noites inteiras na Cracolândia, centro de São Paulo. “Não me importaria de encontrar meu filho lá. Tudo que quero é ter as respostas para as perguntas mais simples: onde está, com quem está, se está bem”, diz a mãe.

Em outra ocasião, a telefonista chegou a desconfiar que o ex-marido, pai de Hugo, poderia ter levado o menino embora. Ressabiada, a mãe chegou a viajar para Joinville, cidade onde os avós paternos de Hugo viviam, para buscar informações sobre o paradeiro do filho. Acompanhada de uma amiga, Fran usou vestidos, enchimentos e peruca para disfarçar sua aparência. “Cheguei a ficar cara a cara com o avô do Hugo, que não me reconheceu. Foi difícil não perguntar nada a ele. Mais difícil ainda foi voltar para São Paulo depois de semanas sem nenhuma informação”, desabafa.

Esperar... pelo quê?

Depois de gastar em cartazes e buscas os R$9 mil que havia juntado desde que Hugo nascera, pensando em pagar os estudos do menino, Fran foi de 56 para 32 quilos, ficou anêmica, começou a fumar exageradamente, e até cogitou suicídio, por overdose de remédios ou se jogando de um viaduto – desistiu por causa da fé que tem em reencontrar o filho. “Se eu colocasse fim na minha própria vida, para quem ele voltaria? Eu sei que meu filho está vivo. Sei que alguém está com ele.”

 

Refúgio e prisão
No centro, de verde, Fran segura fotos de Hugo em frente à Catedral da Sé (Foto: Blog Salvem As Crianças)

 Enquanto está em casa, Fran passa a maior parte do tempo no quarto de Hugo. “É meu aposento preferido”, conta. A mãe não cogita em nenhum instante se livrar das roupas e dos brinquedos do filho, mesmo sabendo que o menino já completou 15 anos e nada ali lhe serviria mais. “Fazer isso seria acreditar que ele nunca mais vai voltar. E ele vai voltar”, diz, com sua voz baixa, porém convicta.

Hoje, entre ansiolíticos e remédios para dormir, Francisca toma mais de dez comprimidos por dia. “Mas quando chega dia 1° de outubro, tenho vontade de tomar tudo de uma vez. É nesse mês que o desaparecimento do Hugo faz aniversário, além de também ter o feriado do dia das crianças e o meu aniversário também”, conta a mãe, com o olhar choroso de quem procura uma resposta que há cinco anos não vem.

Até hoje, Fran não consegue entrar em uma loja de brinquedos: sente vontade de levar algo para o quarto do filho único. Ao passar em frente a docerias, ela costumava comprar dois doces iguais – um para ela e um para Hugo. O hábito não mudou durante meses mesmo depois do desaparecimento. Hoje, já tenta pensar diferente: “Quando ele voltar, compro dois de novo.”

A esperança que a baiana de Vitória da Conquista nutre mal se traduz em palavras. Questionada sobre o que fará se reencontrar o filho, ela abre um sorriso largo, coça o topo da cabeça e, olhando para cima, diz, sincera: “Ah, eu não sei.” Trazendo as mãos para seu rosto cansado e choroso, mantém o sorriso e diz, cheia de esperança: “Queria pegar aquele rostinho macio dele de novo.” E ainda faz uma correção: não é “se” reencontrar Hugo. É “quando”.

 

A luta que ninguém vê

A dor de Fran é o que a faz seguir em frente todos os dias em busca de seu filho. Paradoxalmente, também é aquilo que a devasta. “O sofrimento não é totalmente compreensível durante a vida. Há inúmeros aspectos do sofrimento humano que nós não entendemos porque simplesmente não há resposta para justificá-los”, explica o pastor Mark Driscoll, ao explicar o que chama de Teologia do Sofrimento.

A incerteza é o combustível que alimenta o sofrimento e a esperança de Fran, simultaneamente. É a incerteza que faz com que a mãe se sinta consolada ao se agarrar àquilo que é de seu filho e ainda resiste em suas mãos - o quarto, as fotos, as roupas do menino. Porém, os mesmos objetos que lhe dão consolo são aqueles que também aumentam sua dor. Desfazer-se dos pertences do filho seria devastador para ela - mas mantê-los dentro de sua casa também o é. O sentimento ambíguo que define o conflito interno vivido por Fran não cabe em suas palavras. “Há coisas que você não vai entender até mesmo no seu sofrimento pessoal”, explica Driscoll.

 

De frente com o descaso

Para a paulista Sandra Moreno, a situação é outra. Há mais de um ano, um cadeado tranca um dos aposentos de sua casa, em Carapicuíba, na Grande São Paulo. “Eu entrava ali para arrumar a cama, ver as roupas do armário... mas aquilo foi ficando cada vez mais difícil, então meu filho mais velho decidiu colocar um cadeado ali. Concluímos que era a decisão mais acertada”, diz a dona de casa de 49 anos. O aposento em questão é o quarto de Ana Paula Moreno Germano, desaparecida em 3 de outubro de 2009, com 23 anos.

Desaparecida desde 2009, a filha de Sandra Moreno sequer pegou o ônibus para trabalhar no dia em que foi vista pela última vez.Desaparecida desde 2009, a filha de Sandra Moreno sequer pegou o ônibus para trabalhar no dia em que foi vista pela última vez.

Naquele dia, Ana Paula foi até o quarto de sua mãe, como fazia todos os dias: às 5h20 da manhã, despediu-se com um beijo, desceu as escadas, fechou o portão de casa e rumou para o trabalho. Ela, porém, sequer pegou o ônibus. Sandra conseguiu ter acesso ao relatório de uso do bilhete único da filha e descobriu que ele não havia sido utilizado naquela manhã. Como a filha também estava sem dinheiro na carteira, a conclusão foi simples: “Quem levou minha filha embora a levou da porta da minha casa.”

Sandra trabalhava no mesmo lugar que a filha. O expediente de Ana Paula terminava às 14h, horário de entrada da mãe. Assim que chegou à empresa, porém, Sandra soube que sua filha não havia aparecido para trabalhar na parte da manhã. “Liguei para o celular dela e deu caixa postal. Foi quando entrei em pânico.”

No mesmo dia, Sandra procurou as empresas responsáveis pelas câmeras de vigilância que filmavam o caminho que o ônibus de Ana Paula traçava todas as manhãs. Não encontrou nenhuma imagem em que a filha aparecesse. Com essa informação em mãos e o relatório que comprovava o não-uso do bilhete único por parte da filha naquela manhã, foi à delegacia apenas quatro horas após a notícia do desaparecimento. E ouviu: “A senhora já chegou aqui com 90% do trabalho feito.” Depois de três anos, porém, Sandra ainda não obteve respostas da polícia, que se isentou de investigar os outros 10% para tentar descobrir o paradeiro de Ana Paula. Do chefe de investigação do 1° Distrito Policial de Carapicuíba, a mãe ouviu a frase que mais a chocou nos primeiros dias de busca. Ao dizer que, além de trabalhar, a filha cursava Artes Plásticas, ouviu como resposta: “Ah, então está explicado! Artista é tudo louco mesmo. Já já ela aparece.”   

A omissão não aconteceu só por parte da segurança pública: Sandra fez dossiês sobre o desaparecimento da filha e os encaminhou à Presidência da República, ao Ministério da Justiça, ao Gabinete da Casa Civil, à Procuradoria e à Corregedoria Geral da República e até ao Papa. “Ele foi o único que não me respondeu”, conta. As respostas que recebeu das demais autoridades, porém, não foram animadoras: todos disseram que a causa em questão não cabia às suas competências. “Foi quando entendi que não existia justiça ou polícia que pudesse me ajudar. Nada iria acontecer.”

Sem ter a quem recorrer, a mãe de Ana Paula arregaçou as próprias mangas: folgou suas horas extras no trabalho, recebeu férias e, mais tarde, pediu demissão. Vendeu o carro passou a dedicar a vida em busca de sua filha. Hoje, sobrevive com o auxílio-doença que recebe do Instituto Nacional de Seguridade Social (INSS) e periodicamente também faz consultas psicológicas e psiquiátricas. Ironicamente, toma apenas uma dose de comprimidos vitamínicos por dia - e nenhum remédio. “É um milagre eu ainda ainda estar sã”, confessa.

Durante o tempo que fica em casa, Sandra permanece à mesa da cozinha, cercada de documentos, notícias impressas da internet e estudos sobre desaparecimento de pessoas. À sua esquerda, contempla o armário da pia, que era branco, mas foi pintado por Ana Paula enquanto ela fazia faculdade. Em uma das pequenas portas, o formato da mão da filha de Sandra está carimbado com tinta colorida. “Eu ia trocar esse armário. Mas depois do que aconteceu...”, diz a mãe, observando o desenho da mão da filha, sem completar a frase.

 

A descoberta da coragem

“Eu, Sandra, tenho muitos medos. Mas a mãe da Paulinha não tem nenhum.” Foi com esse pensamento que a dona de casa percorreu mais de duzentas cidades atrás da filha. Em uma ocasião, chegou caminhar os 46 quilômetros que separam Carapicuíba de São Roque pela mata fechada que tangencia a Rodovia Raposo Tavares - ida e volta. Acompanhada da filha e de um amigo da família, tudo que os três tinham em mãos era água, algum dinheiro, uma lanterna pequena, cola e cartazes com o rosto de Ana Paula.

Depois de receber uma pista de um desconhecido que viu o rosto de sua filha em um cartaz, Sandra também já viajou até Santos, no litoral paulista. Segundo as informações recebidas, Ana Paula estava morando na rua, nas redondezas do porto da cidade. Acompanhada de familiares e amigos, Sandra se vestiu de moradora de rua em busca de Paulinha. A expectativa, grande, foi correspondida com uma frustração maior ainda: depois de três dias e duas noites, nenhum sinal da moça loira de cabelos cacheados e olhos azuis.

Sandra desconfia que Ana Paula é vítima do tráfico de pessoas. “Levaram-na embora para bem longe”, garante. Após desbloquear o computador da filha, quebrar seus sigilos telefônico e bancário e não perceber nenhuma anormalidade, a convicção da mãe sobre essa hipótese só aumentou. “Até o salário do mês em que ela desapareceu ainda estava lá, inteiro na conta”, diz. E acredita: “Onde quer que minha filha esteja, ela sabe que estou procurando por ela.”

 

Um novo amigo

Quem se revelou um grande companheiro de Sandra durante seus anos de angústia foi seu neto, Gustavo. Sobrinho de Ana Paula, o menino tinha apenas três anos quando a tia desapareceu, mas ainda se lembra dela. Em dias mais difíceis, é ele que dá forças para Sandra. “O Gustavo é minha minha salvação. Quando eu estou afundando, ele que me puxa de volta para cima. Acabou se tornando meu melhor amigo e aumentando minha fé no reencontro com a minha filha”, diz.

Os dois irmãos de Ana Paula procuram não conversar sobre a caçula da família. “No dia do aniversário dela, nem nos falamos. Nunca mais comemoramos sequer Natal ou ano novo”, conta Sandra. Para atenuar a dor que sentem, seus outros dois filhos procuram acobertar a ausência da irmã com a rotina e as novas prioridades que os três anos seguintes ao desaparecimento trouxeram. O neto Gustavo é o único que, até hoje, fala abertamente com a avó sobre Ana Paula. “Ele sabe quando estou triste. Sempre me diz: ‘a tia Paulinha vai voltar.’ Todos os dias, antes de dormir, ele termina a oração e pede para Deus trazer minha filha de volta. Habituou-se a falar para Ele que eu estou sofrendo muito”, conta. Com as lágrimas querendo fugir de seus olhos, Sandra confessa: “Tenho certeza de que se não fosse o Gustavo, hoje, eu não estaria em pé.”

 

 “Minha dor tem que se transformar em lei”

Munida de seus óculos, documentos e notícias e de um computador conectado às redes sociais, Sandra vê cada manhã como um novo início de sua luta. “A cada dia minha dor, ira e revolta aumentam. Juntas, ela se transformam na força que me estimula a buscar uma resposta, mesmo sem saber por onde ir”, diz. “Desistir dessa luta seria desistir da minha filha. Então, enquanto vida eu tiver, eu vou lutar.” Hoje, Sandra se tornou uma grande estudiosa de desaparecimentos e uma grande entendedora da lei.

Se encontrasse Ana Paula hoje, porém, ela confessa que não saberia como reagir. Fechando o laptop que está à sua frente, ela tenta responder: “Acho que ficaria em silêncio durante algum tempo. Estou há três anos em luto, achando que tudo isso é um pesadelo e que vou acordar. Para mim, hoje ainda é 3 de outubro de 2009. Então precisaria de algum tempo para tentar entender tudo que aconteceu.”

Atualmente, Sandra é autora de uma petição que defende um projeto de lei em prol de medidas que deem assistência a desaparecidos e suas famílias. Sua causa precisa reunir 1% do eleitorado brasileiro para que possa ser levada ao Congresso Nacional como projeto de lei de iniciativa popular. Em números, isso equivale a aproximadamente 1,4 milhão de assinaturas. Entre as exigências expostas no texto-base do projeto estão: a criação de delegacias especializadas para tratar de desaparecimentos; um sistema de cadastro nacional de desaparecidos; e um banco de dados com o DNA de parentes da pessoa desaparecida, para que haja menos empecilhos na identificação de indivíduos desaparecidos que forem encontrados.

Finalmente, o projeto também propõe que os boletins de ocorrência tenham validade na ocasião do desaparecimento, o que não acontece hoje. “Um mês depois de sumir, a Paulinha foi demitida por justa causa. Alegaram abandono do emprego”, conta.

O aparecimento de Ana Paula não faria Sandra parar de lutar. Sua dor, agora, é a dor de todas as mães que conheceu e que provam da mesma angústia que ela sente hoje. “É só fazendo barulho juntas que nós, mães, vamos conseguir as assinaturas para esse projeto ir para frente. É só assim que vamos garantir nossos direitos e os direitos de nossos filhos. Não podemos parar.”

 

A dor de acreditar

A esperança de Ivanise, Francisca e Sandra é o que as mantém em pé e motivadas. As três se adequam ao que é relatado pelo psicólogo Josias Pereira no livro A Fé como fenômeno psicológico. “Um dos elementos propulsores da resolução de conflitos é a fé. Sabe-se que o tratamento psicoterapêutico evolui para melhora quando a pessoa retoma sua capacidade de crer”, diz Josias. “A fé, que é cega, mas vê além do perceptível, assim o é porque emana do profundo obscuro da alma. É essa fé que nos ajuda ao enfrentar dificuldades.”

É no conflito diário de sentimentos e na dor diante do descaso que essas mães encontram sua fé. Estão unidas pela perda incerta, pelo medo e pela ansiedade em busca de qualquer informação que lhes devolva a paz.

Acreditar é aquilo que lhes resta: é a motivação, a sina e a sentença de quem busca aquele que, um dia, já carregou dentro de si.

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